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24/09/2012

ESCRITORES, PESQUISADORES E ROTEIRISTAS DISCUTEM SÉRIES DE TV

 

A diversidade e a complexidade da produção audiovisual contemporânea, bem como os problemas de mercado e os desafios estéticos e políticos assumidos pelos realizadores, provocaram um amplo debate sobre Séries de TV, envolvendo pesquisadores, gestores e roteiristas. Sob a coordenação do crítico e curador Pablo Gonçalo, os especialistas Marçal Aquino, Newton Cannito, Marcel Vieira, Rodrigo Camargo e Karina Barbosa avançaram em uma discussão que se estendeu por toda tarde do domingo, 23, na qual apontaram a matriz histórica dos seriados e as inovações narrativas que cercam essa crescente forma de interação entre o público e a dramaturgia audiovisual, constituindo um espaço de diálogo entre o cinema e a televisão.

 

Karina Barbosa, jornalista e pesquisadora em cinema da Universidade de Brasília, traçou o panorama norte-americano da produção audiovisual, mostrando os três estratos que orientam e balizam as séries televisivas a partir de estruturas industriais complexas e audiências específicas segmentadas: TV premium, TV a cabo normal e TV aberta. “O modo de produção industrial absolutamente organizado, por um lado sustenta esse rentabilíssimo mercado, por outro é cruel com o setor produtivo, pois há séries que não passam da primeira temporada, ou até mesmo dos episódios iniciais”. Karina avalia também que nos Estados Unidos há um grande domínio técnico e narrativo do gênero, em um complexo sistema industrial que já soma 60 anos. Após mencionar diversos seriados de sucesso para nichos específicos, como Mad Man, Lost, House, Desperate Housewives, Gossip Girl, Glee, Pretty Little Liars, Law & Order, entre outros, afirmou que “os norte-americanos se valem de laboratórios que testam os dramas de costumes, os personagens e os cruzamentos entre gêneros, o que acaba resultando em sucessos absolutos de público. Sem dúvida, um mercado bem consolidado, porém implacável e impiedoso com os realizadores”.

 

Para o curador e professor da Universidade Federal do Ceará, Marcel Vieira, “o tema é atual, mas pouco investigado”. De acordo com ele, é necessário entender as mudanças tecnológicas que sustentam as novas produções audiovisuais, bem como as progressivas camadas de recepção a esses conteúdos. “O consumo passou a ser transnacional, há um circuito impressionante de redes e pessoas envolvidas, voluntariamente, de suas próprias casas, na captação de filmes e séries e na produção absurdamente ágil de legendas, o que confere uma agilidade e um alcance incrível na chegada e acolhida desses conteúdos”, avalia.

 

Marcel apresentou ainda a matriz histórica que resultou na produção em grande escala das séries televisivas. “Tudo começou nos EUA, na década de 50, com o surgimento de histórias com estruturas dramatúrgicas já no formato de teleplay. Depois veio o videoteipe e, já nos anos 70, as primeiras séries produzidas de modo independente foram vendidas para as emissoras”. Segundo o especialista, “a busca por qualidade acabou repercutindo na práxis discursiva, transformações que foram sendo encampadas e que resultaram nas narrativas de audiovisual que conhecemos hoje. Um exemplo clássico em direção a essa TV de qualidade é a série Sopranos, criada e produzida pelo canal HBO”. Outro dado interessante levantado pelo professor são as comunidades de fãs: “a indústria cria uma rede de interesses afetivos que possibilita trocas reais, efetivas. As fan pages são uma amostra disso. Há Alguns fãs que se destacam por sua capacidade interativa nas redes e chegam a ser contratados por grandes empresas para a divulgação de seus produtos e imagem”.

 

Já Rodrigo Camargo, coordenador do Fundo Setorial do Audiovisual, da Agência Nacional de Cinema (Ancine), expôs os mecanismos de financiamento e captação de recursos, um orçamento que chega a R$ 205 milhões para projetos de produção e distribuição de longas-metragens e séries de televisão. “Para TV, desde 2008 foram lançados quatro editais, somando R$ 100 milhões. Dos 170 projetos apresentados, 49 obras seriadas foram contempladas, abrangendo, em grande parte, produções de emissoras públicas e educativas”, informou. “O desafio maior é constituir uma política que fortaleça efetivamente a indústria na produção de obras que se fixem na grade televisiva do brasileiro”, complementou.

 

Em tom bem-humorado e provocador, o cineasta e escritor, atualmente presidente da Associação Brasileira de Roteiristas, Newton Cannito, defendeu a apreensão da literatura e o ensino da dramaturgia clássica como as principais ferramentas para a construção de roteiros de qualidade. “A série Sopranos, criada por David Chase, trouxe para a contemporaneidade o que Balzac já fazia no século 19, com a comédia da vida humana”. Para Cannito, o mercado brasileiro tem de entender que as séries televisivas precisam se valer muito mais do autor, do roteirista, do que da figura do produtor. “Tropa de Elite 2, por exemplo, é um thriller político, uma narrativa que comporta um livro didático de sociologia”, afirmou, acrescentando que no Brasil, em geral, as produções giram em torno de dramas realistas ou comédias sociais. “A gente precisa se destravar, se reinventar”, propõe. “Infelizmente não temos a tradição de escrever roteiro, esses profissionais não são valorizados. Muitos dos bons roteiristas de produção independente acabam sendo cooptados pela Globo, simplesmente porque o mercado precariza seu valor”, lamenta.

 

O premiado escritor Marçal Aquino contou ao público que foi prestigiá-lo que se tornou roteirista de cinema por acidente. “Sou escritor e me sinto um peixe fora d´água aqui, pois sequer assisto seriados de TV, por não ter paciência alguma nesse tipo de modelo dramatúrgico”. Convidado a relatar sua experiência à frente da série brasileira Força-tarefa, em seu quinto ano de exibição na rede Globo, Marçal disse que aceitou o convite por ter especial apreço tanto pelo gênero policial quanto pelo tema da violência urbana, o qual incorpora em boa parte de sua produção literária e cinematográfica. “É muito complicado escrever para TV, pois o formato, de custo altíssimo, tem de estar subordinado a uma fórmula episódica e a um arco dramático que sustentem o interesse do espectador por meses a fio – coisa que nem sempre é interessante para a melhor condução narrativa”, concluiu.

Texto: Luciana Barreto - OBJETO SIM