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19/09/2012

ESPECIALISTAS DISCUTEM MERCADO, FRONTEIRAS E CRUZAMENTOS DE GÊNEROS CINEMATOGRÁFICOS

O espaço constituído no 45º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO para a discussão conceitual das fronteiras e cruzamentos entre os gêneros cinematográficos acabou por comportar outro debate, de ordem mais prática: as dificuldades de produção e de captação de recursos e o problemático esquema de distribuição dos filmes realizados no Brasil. No seminário Tendências do cinema contemporâneo: gêneros cinematográficos e suas interfaces, ocorrido nesta quarta-feira, 19, e coordenado por Dacia Ibiapina, documentarista e professora da Universidade de Brasília, professores, críticos e realizadores lançaram suas considerações sobre a definição de gênero em cinema e se as tradicionais classificações - como drama, comédia, documentário, ficção, por exemplo - persistem e se apresentam como corretas e factíveis nos dias de hoje.

Para Raquel Imanishi, professora de Estética e coordenadora do Cineclube Beijoca na UnB, o mercado e seus condicionantes comerciais contribuem para a definição do formato, a duração do filme, a amarração da linguagem. "Nos últimos dez anos, os grandes sucessos comerciais foram Tropa de Elite, Nosso lar, Cidade de Deus, Filhos de Francisco, Chico Xavier - feitos e produzidos em associação com grandes esquemas internacionais de distribuição. Acredito que a narrativa comercial determina a condição de gênero".

Com um tom pessimista e cáustico, o poeta, professor, roteirista e diretor de produção Ataídes Braga afirmou que não acredita nesse tipo de classificação fílmica por gêneros, enquadramento que julga reducionista e tolo. "No Brasil, copiam-se gêneros e modismos que existem no panorama do cinema mundial. Isso não faz sentido aqui até porque em termos cinematográficos não somos sequer modernos, apenas arcaicos". De acordo com o entendimento do especialista, "as pessoas confundem estilo com gênero. É uma balela buscar definições", acrescentando que "com exceção de poucos filmes as produções brasileiras são bem caretas". Para ele, "em geral, no Brasil, se faz filme, não cinema" - referindo-se ao caráter autoral e experimental do ofício que, segundo ele, é pouco praticado. "São os editais e as empresas que forçam esse tipo de classificação e enquadramento em gêneros", adverte. 

"Como o cinema brasileiro perdeu na última década! Exemplo disso é que de 680 filmes produzidos em 10 anos, menos de 200 chegaram às salas de exibição", avalia ao sublinhar a hegemonia dos grupos associados a grandes corporações, como a Globo Filmes, "que certamente não tem interesse em investir em filmes experimentais, independentes". "Por que produzir tanto para se exibir tão pouco?", questiona.

Para o professor do Curso de Audiovisual da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), Eduardo Santos Mendes, "quem costuma catalogar filmes por gênero é crítico ou acadêmico. A vantagem de não sermos uma indústria forte é que temos mais liberdade, podemos escapar disso, ao contrário da indústria norte-americana". Eduardo disse achar interessante a divisão expressa em toda e qualquer vídeo-locadora do país: "ao lado das prateleiras de drama, comédia, western, está a seção de cinema brasileiro, como se fosse um gênero à parte", nota.

Como sound designer atuante, já tendo participado de filmes de Tata Amaral, Carlos Reichenbach, Roberto Moreira e Walter Hugo Khoury, declarou: "trabalho com diretores que se interessam por temáticas, não por gêneros", complementando que, "em compensação, há diretores como José Mojica que fazem exclusivamente um gênero só, no caso dele, o gênero terror". Em relação à recepção fílmica, considera que o cinema brasileiro padece ainda de um bom padrão de projeção e exibição.

De modo breve, o montador e técnico de som paulistano Guiles Martins concordou com a dificuldade de se separar os filmes em gêneros. "Se for assim, um tipo de filme super em voga atualmente pode ser enquadrado no gênero de apartamento", provocou.

Nesse sentido, Adirley Queirós, graduado em Cinema pela UnB, defendeu que deveria existir, então, o "gênero de periferia". Com muito bom humor e de modo informal e provocativo, o cineasta divertiu a plateia contando sobre o desafio de registrar e falar de pessoas da periferia para um público de classe média: "é difícil achar a pegada para fazer um filme popular. Meu teste de audiência são os maloqueiros da Ceilândia. Se eles tiverem paciência, beleza, sinal de que o filme pode ser visto".

Adirley aproveitou para criticar uma certa estética sobre as favelas: "são narrativas condescendentes para o grande público ver, entender e aceitar". Para ele, se a periferia não for representada como algo pitoresco e exótico não haverá audiência, "afinal, o formato documentário exige pessoas simples em situações extraordinárias ou pessoas extraordinárias em situações simples". "A galera bacana do centro não daria conta de escutar como o carinha da periferia verdadeiramente fala: gago e com raiva", afirma com conhecimento de causa. "O mais engraçado é pressupor que a classe C, que comprou uma TV 51 polegadas em 24 vezes, vai querer saber de cinema independente, autoral, popular . O que querem é justamente o cinemão", ressaltou ao defender que o Estado deve investir em coisas simples, incentivando cineclube nas próprias escolas, para conquistar os estudantes e ajudar na formação crítica e estética dos jovens.

Dácia Ibiapina, quando provocada sobre a internet como suporte para as produções audiovisuais, disse ver com "desconfiança essa prática". Para a professora, "por mais que seja um espaço democrático, a internet serve apenas para produções pequenas e pontuais, o youtube, por exemplo, não é um alternativa satisfatória de exibição".

Texto: Luciana Barreto - Objeto Sim