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20/09/2012

EXCLUSÃO E MEMÓRIA EM FOCO NO SEGUNDO DEBATE

No segundo dia de debates das mostras competitivas do 45º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO dois temas predominaram. Na mesa destinada a discutir os filmes documentários, as atenções se concentraram na questão da exclusão, presente tanto no curta-metragem A Cidade, de Liliana Sulzbach, quanto no longa Kátia, de Karla Holanda. Já no debate dedicado aos filmes de animação e ficção, a memória, assunto que está no próprio título do longa A memória que me contam, de Lúcia Murat, foi o foco do interesse, reservando à animação Mais Valia, de Marco Túlio Ramos Vieira, e ao curta Vereda, de Diego Florentino, questões mais ligadas à parte técnica da realização.

A Cidade, de Liliana Sulzbach, é curta-metragem que mostra a vida na Colônia de Itapoã, comunidade do Rio Grande do Sul criada na década de 1940, por uma política do Governo Getúlio Vargas de segregar os portadores de hanseníase. Situada a 40 km de Porto Alegre, a colônia permaneceu durante todos estes anos com seus habitantes separados de suas famílias e tem sido preservada devido à localização privilegiada, cercada por uma zona de proteção ambiental. "É um paradoxo. O lugar é maravilhoso e esconde um drama terrível! Eu cheguei lá e me senti no paraíso. Tanto que a gente se mudou pra lá durante todo o tempo das filmagens".

Segundo relatou Liliana, seu primeiro contato com o lugar se deu em 2007, através de uma antropóloga: "ela me disse que era importante registrar aquele local, porque as pessoas de lá estavam desaparecendo. E nós constatamos isso. Em 2007, quando fomos pela primeira vez, havia 40 moradores. Quando filmamos, já eram 37 e hoje são 35", contou a diretora. Ela também explicou sua opção de não revelar, logo no início do filme, que lugar é aquele e quem são aquelas pessoas: "Foi também o jeito que eu entrei na colônia. Decidi ir revelando aos poucos o drama daquelas pessoas. O público vai descobrindo que elas foram separadas de suas famílias, tiveram seus filhos levados para longe e só depois se compreende o motivo", disse Liliana Sulzbach. Ela contou: "Na época, elas eram compulsoriamente arrastadas pra lá. Hoje, estão todos curados, com sequelas, mas não têm mais condições de serem inseridos socialmente".

Segundo afirmou a cineasta, mesmo depois de ter acabado a lei do confinamento, em 1953, a prática das colônias de portadores do Mal de Hansen permaneceu até meados da década de 1970. Isso gerou vários problemas, como filhos que não sabem quem são seus pais e pais que desconhecem o paradeiro de seus filhos. Liliana revelou que a entidade Mohan, dedicada à construção de políticas públicas e conscientização e prevenção da Hanseníase, tem se ocupado de tentar juntar as pessoas. "Quis fazer um filme sobre o presente deles e não sobre seu passado de dor". De acordo com a diretora, existem várias versões do tema: o curta exibido no Festival, com 15 minutos de duração; um filme concebido para a televisão, com 26 minutos; e uma obra que está ainda em processo, um Web Doc, que vai juntar várias outras informações sobre o assunto.

Também sobre exclusão, mas com uma abordagem diversa, o longa-metragem Kátia, de Karla Holanda, lança luz sobre a personagem Kátia Tapety, a primeira travesti eleita para cargo político no Brasil: Kátia já foi três vezes vereadora e vice-prefeita da pequena Colônia do Piauí, com oito mil habitantes. Integrante de uma família tradicional da comunidade de Oeiras, no interior do estado, Kátia foi impedida pelo pai de seguir seus estudos, como fizeram seus irmãos, por ter, desde pequena, estampada sua opção sexual. "Eu sinto revolta porque meu pai me prejudicou muito", revelou Kátia. "Todos os meus irmãos fizeram carreira. Hoje, eu podia ser a Dra. Kátia. Mas eu fiquei em Colônia do Piauí cuidando de bicho. De nove irmãos, sai eu, diferente de todos", disse com sua forma direta de falar.

E é justamente a personalidade forte e carismática da personagem central que dá tom a todo o filme de Karla Holanda. "Quando conheci a história, olhei tudo sob o ponto de vista da política, de ser a primeira pessoa eleita para cargo público como travesti. Mas depois, quando conheci Kátia, esta questão se colocou como secundária e nos interessou muito a forma como ela vive e exerce sua política no cotidiano daquela comunidade tão pobre", disse a diretora. "Pode ser vista como uma política assistencialista, paternalista, mas ajuda as pessoas em coisas elementares, como levar para um hospital, ajudar num deslocamento. É fundamental. E isso é também uma abordagem política".

Segundo Karla Holanda, o documentário é resultado de um jogo entre o roteiro original e a personagem, que é muito forte e dinâmica. "É evidente que existe ainda a potência do preconceito, mas é muito difícil isso persistir diante da espontaneidade de Kátia", esclareceu. E avisou que a intenção é distribuir o filme principalmente para as periferias das grandes cidades e no interior do País. "Pode ser uma utopia, mas queria que este filme chegasse a uma parcela da população que tem sido habitualmente excluída do cinema brasileiro".

 

RESGATE DO PASSADO

O tema do longa A memória que me contam, de Lúcia Murat, dominou o debate direcionado aos filmes de animação e ficção da segunda noite das mostras competitivas do 45º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO. As sequelas deixadas pela repressão durante o período da ditadura militar no Brasil são assuntos recorrentes em toda a obra da diretora. "Minha vida é parte disso. É uma tendência natural trabalhar sobre uma situação que se viveu numa história tão no limite", justificou Lúcia Murat. E afirmou: "Para mim, nunca será suficiente o que se faz para resgatar este passado. É preciso recuperar de fato a memória deste país e deixar de lado esta ideia de uma ditabranda. O que vivemos foi uma ditadura brutal".

De acordo com a diretora, a ideia de A memória que me contam existe há mais de 20 anos: juntar várias pessoas numa sala de espera discutindo sobre aquele período da história brasileira. O tema ganhou ainda mais importância depois da morte, em 2007, de Vera Sílvia Magalhães, economista, socióloga e ex-guerrilheira, a quem o filme é dedicado: "Ela era importante para muita gente. Foi várias vezes internada e nós nos juntávamos na sala de espera, discutindo. Era um grupo muito grande e eu decidi selecionar algumas pessoas deste grupo como representativas, além de colocar alguns jovens também, porque muitos deles são frutos do exílio", explicou Lúcia. E acrescentou, sorrindo: "Quis contrapor libertários conservadores e caretas libertários". Para isso, contou com a parceria de Tatiana Salem Levy no roteiro. "Ela é filha de Helena Salem, que também foi exilada, e nasceu em Portugal, durante o exílio de sua mãe. O filme cresceu muito com isso".

Coube à atriz Simone Spoladore dar vida a uma representação de Vera, no filme batizada de Ana. A personagem atravessa o filme, como uma construção da memória dos demais personagens da trama. Disse a atriz: "Eu parti da poesia para construir o personagem. Quando estudei o roteiro, a sensação era de uma mulher cheia de água, de emoção, dentro de um grande mar que a engole e do qual ela não consegue emergir. Depois que vi o filme ontem é que me lembrei de que esta era uma sugestão da primeira cena do roteiro".

Texto: Carmem Moretzsohn - Objeto Sim