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24/09/2012

LIMITE ENTRE FICÇÃO E DOCUMENTÁRIO NO ÚLTIMO DEBATE

 

Que fronteiras separam as linguagens da ficção e do documentário? A questão foi a primeira a ser levantada no sexto e último debate dos filmes das mostras competitivas do 45º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO, realizado na manhã desta segunda-feira (24), com mediação da jornalista Maria do Rosário Caetano. Explica-se: tanto o curta – A onda traz, o vento leva, de Gabriel Mascaro – quanto o longa – Elena, de Petra Costa – exibidos como documentários na noite de domingo caminhavam nos limites entre os dois gêneros e poderiam estar inseridos em qualquer das duas categorias. O mesmo acontece com o longa-metragem Esse amor que nos consome, de Allan Ribeiro, o último concorrente da mostra competitiva a ser exibido no Festival de 2012.

 

A onda traz, o vento leva, segundo filme dirigido pelo pernambucano Gabriel Mascaro a participar da mostra (o primeiro foi o documentário de longa-metragem Doméstica), apresenta a vida do personagem Rodrigo, nome fictício adotado pelo protagonista Márcio Santos, um deficiente auditivo portador do vírus HIV. O filme acompanha o cotidiano do rapaz, que trabalha consertando equipamentos de som. Mas não esclarece se o que apresenta é a vida real de Márcio ou é do fictício Rodrigo. “Quando decidimos contar esta história e eu conversei com Márcio, ele disse que aceitaria fazer, com a condição de criarmos um personagem para ele se sentir mais à vontade”, explicou Mascaro. Daí o trato de não revelar até onde vai o real e onde começa a fantasia.

 

A ideia de A onda traz, o vento leva partiu de um convite feito a Gabriel Mascaro por uma produtora da Espanha interessada em registrar histórias que abordassem o tema do HIV. O diretor chegou ao portador de deficiência auditiva Márcio Santos. “Nós construímos a história juntos”, avisou Mascaro. E, em libras, o protagonista do curta complementou: “Ficamos pensando em como seria mostrar o meu cotidiano, a minha casa, a minha família. Foi tudo muito conversado”. A produtora Rachell Ellis informou que a parceria espanhola vai garantir à produção uma distribuição em galerias e espaços de arte, além de outros circuitos alternativos europeus.

 

Profundamente pessoal e poético, Elena marca a estreia da atriz e diretora Petra Costa no formato de longa-metragem. O filme apresenta a relação da realizadora com sua irmã, Elena Andrade, atriz falecida ainda muito jovem. Através de farto material de arquivo, a vida de Elena vai sendo reconstruída, recontada, revivida. Quase como se Petra vasculhasse o baú da família para revolver mistérios e espantar fantasmas. O filme também caminha na tênue separação entre ficção e realidade e demonstra imensa coragem da diretora e de sua mãe, Li An, de reviver uma história marcada pela dor.

 

Elena é narrado em primeira pessoa e mescla imagens de arquivo e cenas captadas no presente, protagonizadas por Petra Costa. Impressiona a grande quantidade de registro de imagens que percorre a história da família. “Filmar é um hábito familiar que vem desde a minha avó, que filmava muito na década de 50”, revela Petra. Segundo ela, ao começar suas pesquisas para o filme, acabou se deparando com grande quantidade de material filmado: “Encontrei um acervo incrível de VHS esquecido na garagem de casa, mofando. A Elena ganhou uma câmera quando fez 13 anos e passou a filmar tudo, inclusive pequenas histórias de ficção que ela criava”. A mãe, Li An confirma: “A Elena filmou muito. Mas depois do que aconteceu eu não tive coragem de ver aquele material nem capacidade de cuidar dele. Eu sou meio bagunçada”.

 

Petra Costa confessou que sua primeira intenção – ao tomar contato com as imagens do passado – era contar uma história ficcional. “Eu olhava e via nela o mito da Ofélia, da jovem na flor da idade que no auge da fecundidade submerge. Um fruto que quer desabrochar e não encontra como e se afoga no excesso de desejos”. E foi partindo do mito shakespeareano que a diretora reelaborou sua relação com a irmã, falecida quando ela tinha apenas sete anos de idade: “O pouco que eu sabia dela tinha vindo de relatos da minha mãe. A partir do contato com este material eu fui reencontrando minha irmã e fiquei magnetizada pela imagem dela. Fiquei eu, Orfeu, buscando minha Eurídice. Fui para Nova York com uma caderneta de telefones de 1990, que era dela, e comecei a procurar os amigos, o último namorado etc. E para minha surpresa, vinte anos depois consegui encontrar muita gente ainda”.

 

No final da pesquisa, Petra tinha em mãos mais de 100 horas de material para editar. Verdadeiras preciosidades, como os pequenos filmes que Elena fez ainda adolescente e uma entrevista de trabalho da personagem nos Estados Unidos, em que fala de seu sonho de ser atriz de cinema. “Esta fita foi uma VHS que a menina que tinha sido a melhor amiga de Elena em Nova York recebeu de uma produtora que soube da morte da minha irmã. Ela se sentia culpada por não ter dado logo a resposta que Elena esperava. E esta amiga guardou a fita durante 20 anos, sem saber por que”.

 

Segundo revela a diretora, aos 17 anos de idade sentiu pela primeira vez a necessidade de mergulhar no tema. Cursava teatro na faculdade e participava de um curso com o grupo Teatro da Vertigem. Num dos exercícios, a proposta era criar uma cena a partir do tema “Livro da vida”. Como não tinha contato com qualquer livro religioso, achou que devia buscar inspiração em sua própria vida e vasculhou seus diários. No meio deles se deparou com um diário de sua irmã, Elena: “Eu me identifiquei muito com a relação dela com a arte. Parecia um diário meu que eu não havia escrito. Então, fiz uma cena que misturava minhas palavras com a dela e ali nasceu a ideia de contar esta história toda, de falar do feminino, desta passagem da adolescência que é tão sofrida, de me misturar com ela”.

 

Elena aborda um drama íntimo, devastador, de forma poética. A história da personagem vai sendo construída aos poucos e seu suicídio só é revelado na segunda metade do filme. “O processo foi muito doloroso, uma convivência diária com a dor”, confessa Petra. “Mas foi também uma experiência prazerosa porque neste trajeto eu ganhei uma irmã”. A diretora conta que a dor da perda vem sendo trabalhada por ela e sua mãe ao longo destes 22 anos de ausência de Elena. “Eu comecei a fazer terapia aos sete anos de idade e estas questões já estavam desembrulhadas, o nó estava desfeito e não apertava mais o meu pescoço”. No entanto, sua mãe, Li An, não se furtou a declarar: “Para mim, ainda é muito devastador. Eu não vejo o filme: só o começo e o fim. Só estou viva graças a Petra”.

 

AS VÁRIAS FACES DO RIO DE JANEIRO

 

O debate dos filmes de animação e ficção esteve desfalcado. Assim como ocorreu na noite de domingo, o curta de animação Destimação, do goiano Ricardo de Podestá, não enviou representante. As atenções se concentraram no curta Menino peixe, de Eva Randolph, e no longa Esse amor que nos consome, de Allan Ribeiro. O primeiro, uma ficção sobre nascimento e transformação e o segundo a história de uma companhia de dança que busca uma sede própria no centro da cidade do Rio de Janeiro.

 

Menino peixe tem como protagonistas a menina Mila Freitas e a atriz Patricia Selonk, integrante da Armazém Cia de Teatro, um dos grandes nomes do teatro brasileiro, diversas vezes premiada. Na tela, a história de uma mãe, nos últimos dias de gravidez, e sua filha, de sete ou oito anos de idade, que procura entender a transformação que se processará na vida da família quando o irmãozinho chegar. “Essa história surgiu há muitos anos”, conta a diretora Eva Randolph. “Eu queria muito falar desta ruptura. Eu estava morando fora e era muito forte em mim este sentimento de desligamento. Queria contar uma história que abordasse este rito de passagem”. No filme, ao ser informada por sua mãe de que seu irmãozinho é um peixe na barriga, a menina sonha seguidas vezes com o encontro com o este desconhecido na orla do Rio de Janeiro.

 

A cidade também é palco do longa de ficção Esse amor que nos consome, que mostra, entre cenas reais e ficcionais, o cotidiano da Companhia Rubens Barbot, o primeiro grupo afro-brasileiro de dança contemporânea. Na tela, ele e o companheiro, o produtor Gatto Larsen, alugam uma casa no centro do Rio de Janeiro, que se torna residência, sala de ensaio e sede do grupo. No entanto, a casa está à venda e eles terão que contar com a proteção de Iansã e Exu para garantir sua permanência no local. “Nós nos inscrevemos no festival nas duas categorias. Não sabíamos se era ficção ou documentário. Achamos que o filme vai poder ter uma carreira nas duas linguagens”, declarou o diretor Allan Ribeiro.

Texto: Carmem Moretzsohn – Objeto Sim