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18/09/2012

MEMÓRIAS AFETIVAS, 50 ANOS DE CINEMA NA UNB

Mais que um encontro, mas um reencontro no qual experiências, lembranças e testemunhos confirmam uma época e um lugar que se inscreveram, em definitivo, no imaginário da capital federal e do cinema brasileiro. A partir do projeto humanista e libertário de Darcy Ribeiro, o percurso da primeira geração de artistas e cineastas que vieram a Brasília para fundar o curso de cinema acabou por resultar no que veio a ser uma referência em todo o país: o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, já em sua 45ª edição. Sob a coordenação da professora e pesquisadora Tania Montoro, o seminário Memórias Afetivas, 50 anos de Cinema na UnB, iniciado nesta terça-feira, 18, foi aberto com nomes que fizeram a história do curso pioneiro no Brasil e se tornaram referência no fazer fílmico do país: Jean-Claude Bernadet, Fernando Duarte, Vladimir Carvalho, Tizuka Yamasaki e Marcos Mendes.



Na mesa "E como tudo começou - meio século de cinema na UnB", ocorrida pela manhã, depoimentos de resistência, criatividade e experimentação encantaram e emocionaram uma plateia atenta e deferente, que lotou o salão Tiradentes, no Kubitschek Plaza Hotel. O reitor da UnB José Geraldo Sousa Júnior saudou a iniciativa, lembrando que "essas memórias afetivas constituem um dos eixos programáticos do jubileu da universidade", aproveitando para cumprimentar "o panteão de pioneiros responsável por essa espécie de ancestralidade do Festival de Cinema".



PIONEIRISMO - Cordato e discreto, Jean-Claude Bernadet relatou como o curso de cinema foi desenhado e conduzido "de modo inédito, pioneiro no Brasil", já em 1965, um ano depois do golpe militar: "Pompeu de Sousa se articulou com Paulo Emilio Salles Gomes, recém-chegado em Brasília, que rapidamente constituiu o corpo docente inaugural formado por mim, por ele, além de Lucilia Bernadet e Nelson Pereira dos Santos". Segundo o ensaísta, "pela primeira vez no Brasil as ideias passaram a constituir objeto de estudo na estrutura de um curso universitário, pois se ensinava apenas roteiro, montagem, fotografia, coisas assim". Além disso, "a UnB também foi a primeira universidade que pensou a formação de profissionais. A USP criou a Eca somente um ano depois".



"A contribuição de Nelson Pereira dos Santos foi fundamental, extraordinária", complementou, contando que mesmo sem recursos e equipamentos, trabalhava com os estudantes todas as fases de filmagem - como produção, fotografia, cenografia, direção de ator -, apesar de uma pequena particularidade: não havia película. Para Bernadet, "o que importava era o gesto, a simulação prática que realmente ensinava". Outra experiência relatada foi a realização, também por Nelson Pereira, do filme Fala Brasília(1966) a partir de uma pesquisa do Departamento de Linguística sobre a confluência dos 'falares' na nova capital. Em sua exposição, também mencionou o exemplo de Paulo Emilio e seu trabalho de extensão, que tanto integrava a cidade à universidade, a exemplo das atividades de debates e projeção de filmes dirigidas a alunos do Ensino Médio, o antigo CIEM, "o que marcou toda uma geração em Brasília".



CRIATIVIDADE - Os relatos de Fernando Duarte, cineasta e professor demitido no período da ditadura e posteriormente reconduzido à UnB, também iluminaram a reconstituição da memória da universidade como espaço simbólico inaugural. Os anos de opressão e as restrições impostas à UnB foram pontuados para ilustrar como a persistência em um projeto e a o espírito criativo para se lidar com as adversidades se fizeram providenciais para a continuidade do curso de cinema. Convidado para reestruturar o antigo Instituto Central de Artes (ICA), em 1968, Duarte chegou em Brasília disposto a reestruturar os cursos que o integravam. "Após a demissão de Jean-Claude Bernadet e Maurício Capovilla me vi sozinho com a tarefa de remontar o curso de cinema. Foi aí que tive a ideia de trazer Vladimir de Carvalho", conta. "Descobrimos até uma câmera no antigo Hospital Distrital, que pegamos emprestado para fazer nossos filmes. Desse modo rodamos, por exemplo, Vestibular 70". Em 1974, Duarte foi demitido pelo reitor Geraldo Azevedo. Por fim, complementou: "em Brasília nada de importante acontecia sem a participação da UnB".



DIMENSÃO SOCIAL E HISTÓRICA - Com empolgação e bom-humor, Vladimir Carvalho, documentarista e professor aposentado de cinema da UnB, também contou como foi "seduzido", por seu colega Duarte, a vir para Brasília, fazendo um relato pormenorizado tanto do clima político e dos personagens que marcaram os anos 60 quanto das condições adversas, mas desafiadoras que marcavam o fazer cinematográfico nessa época. "O que ocorre até hoje em Brasília, em termos de cinema, é consequência dessa primeira semeadura na UnB. Não só o festival nasceu aqui, mas o polo de cinema e vídeo é extensão do que foi pensado e estruturado na universidade",disse. Uma forte marca sua impressa ao programa é "ter o documentário como método, pois montei um curso que privilegiasse essa dimensão histórica e social".

TRANSFORMAÇÃO - Cineasta de renome, a paulista Tizuka Yamasaki marcou presença no seminário para contar de sua experiência como ex-aluna de cinema na UnB e falar dos episódios que ainda persistem em sua memória, os quais credencia como fundamentais à sua formação. "Após tentar outros vestibulares para arquitetura, acabei vindo para Brasília por conta do programa no Instituto Central de Artes. Bastou uma aula com Cecil Thiré para eu me deixar encantar para sempre pela dimensão lúdica e brincante do cinema",aproveitando para contar que o contato com Vladimir Carvalho a fez abrir os olhos para o Nordeste e o restante do país. Depois de o curso de cinema ser fechado, acabou migrando para o Rio de Janeiro, na Universidade Federal Fluminense, onde buscou levar parte do olhar e do fazer apreendidos na UnB. "A UnB me transformou. Eu, uma garota neta de imigrantes japoneses, altamente individualista e que tinha como horizonte vencer na vida, me vi melhor e mais libertária após ter vivido anos incríveis de solidariedade e invenção em Brasília", afirmou.

Outro ex-aluno do curso de cinema e hoje professor há 25 anos, o documentarista Marcos Mendes também assinalou a importância da UnB na convergência de saberes e de produções no fazer cinematográfico da cidade. Com emoção, relatou diversos episódios vivenciados na universidade que marcaram sua trajetória profissional, assinalando "o curso como um patrimônio, um espaço de resistência cultural" e lembrando vários nomes pioneiros que ajudaram a constituir a memória do cinema na UnB, na cidade e no Brasil, como Paulo Tourinho, Sérgio MOriconi, Pedro Anísio, Armando Lacerda, Rogério Rodrigues e João Facó, entre outros. "Somos aquilo que lembramos, o que resta em nossa memória",complementou.

Para Tania Montoro, idealizadora do encontro, "toda questão do pertencimento deriva do conhecimento da história, e nosso alunos precisam se apropriar dessa memória - "até para compreenderem que o curso de audiovisual não se reduz à dimensão tecnológica, que a tecnologia não pode ficar à frente da linguagem" . Segundo a pesquisadora, "a UnB é construída a partir de concepções inscritas em imaginários e tradições. E ao mediar a narrativa sobre a cidade, cumpre sua missão de ajudar que a cidade escape de sua racionalidade moderna para dar lugar à capacidade de fabular".

Como um dos responsáveis na fundação do imaginário cinematográfico em Brasília, Montoro homenageou o cineclubista José Damata pela "sua valiosa contribuição na formação de novos públicos, alunos, cinéfilos e cineastas da cidade". Sob aplausos e com uma fala emocionada, ressaltou que "Damata traz para nossa geração, e para Brasília como um todo, o verdadeiro significado do intelectual orgânico, aquele que faz a necessária ponte entre o saber e a prática".