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23/09/2012

MÚSICA E SILÊNCIO NO QUINTO DEBATE

 

A primeira mesa de debates das mostras competitivas do 45º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO na manhã deste domingo ficou concentrada no longa Olho Nu, de Joel Pizzini. A atividade incluiria também debate com os integrantes do coletivo Zé Furtado, de Brasília, responsável pelo curta A ditadura da especulação (alguns deles leram extenso manifesto antes da exibição do filme, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional), mas ninguém compareceu. Tampouco Joel. Ausente por estar ministrando oficinas e sendo homenageado com retrospectiva em Berlim, Pizzini esteve representado pelas produtoras executivas, Paloma Rocha (ex-mulher de Pizzini) e Sara Rocha, pelo assistente de direção e pesquisador Rafael Saar, pelos montadores Alexandre Gwaz e Joaquim Castro, pelo consultor de montagem Ricardo Miranda e por representantes do Canal Brasil – Paulo Mendonça (diretor geral) e André Saddy (gerente de marketing e projetos) –, que assina a coprodução.

 

“O filme nasceu de um convite do Canal Brasil ao Joel para fazer um documentário sobre o Ney Matogrosso para a televisão. Logo no primeiro ano de introspecção do material, vimos que havia pelo menos 300 horas de material de arquivo. Então, o Joel quis fazer um filme, já que o Ney também estava interessado em dar um sentido a este material todo”, contou Paloma Rocha. “Eu conheço o Ney há mais de 40 anos, desde antes da origem do Secos & Molhados”, contou Paulo Mendonça, autor de um dos maiores sucessos do grupo, Sangue Latino, que ele assina em parceria com João Ricardo. “Um dia, fui à casa dele e ele abriu um armário para me mostrar a quantidade de registros de imagens que ele tinha da carreira, em vários formatos. Decidimos editar tudo aquilo e tinha mais de 200 horas de material”, contou. No final, coube a Rafael Saar decupar cerca de 700 horas de material de arquivo.

 

Até chegar à sua estreia no FESTIVAL DE BRASÍLIA, Olho Nu levou cinco anos de trabalho. Tudo começou no final de 2007. “No processo destes cinco anos, muita coisa aconteceu: a gente se separou, outros casaram, outros ainda tiveram filhos...”, revelou Paloma. Um longo tempo que serviu para decantar o formato que o filme ganhou, como explica a diretora: “Tem uma montagem intensa, síntese do pensamento do Ney, que pinça a persona dele. A gente conversou muito sobre silêncios e pausas para reflexão, mas acho que Joel está neste momento. Desde Anabasys (2007), passando por Mr. Sganzerla (2012), Joel está neste momento de imprimir um ritmo frenético a suas produções”. Paloma também brincou: “ele sempre fala que um filme não tem que ter obrigatoriamente a duração de uma partida de futebol. Talvez tenha sido uma tentativa de ajustar mais as coisas”.

 

Olho Nu apresenta imagens que acompanham a vida de Ney Matogrosso desde a juventude até os dias atuais. O material recente, segundo revelou Paloma, foi colhido durante quatro dias de entrevistas no sítio do artista, no Rio de Janeiro. “O Ney é totalmente inserido na natureza. Ele se satisfaz e se complementa ali. Convive com os bichos como nós convivemos aqui” contou a produtora, explicando ainda que “ele é muito reservado com suas relações pessoais. Acha que isso não interessa a ninguém”.

 

O filme exibe amplo material inédito. São filmes em Super 8, como o curta de Luiz Fernando Borges sobre o show Bandido, do grupo Secos & Molhados, na década de 70, clipes do grupo pinçados em emissoras como Globo e Bandeirantes que gentilmente abriram seus arquivos, e ainda material pessoal de Ney Matogrosso e dos demais integrantes do grupo. “O que nós não conseguimos recuperar foi o primeiro clip dos Secos e Molhados, exibido no programa Fantástico, da TV Globo”, revelou Ricardo Miranda. “E também o programa Dimensão, que Ney apresentou na TV Brasília nos anos de 68 6 69”, completou Rafael Saar. “O filme não tem depoimentos de amigos, mas está povoado de vozes”, afirma Alexandre Gwaz, para quem “o corpo de Ney é uma personagem, assim como as cidades por onde ele passa”. Seu parceiro na montagem, Joaquim Castro, concordou: “No filme está o imaginário do Ney e que o construiu, como as influências de Carmen Miranda e Kazuo Ohno. É um autorretrato”.

 

O DISCURSO DO SILÊNCIO

 

Se Olho Nu esteve povoado de músicas e da presença arrebatadora de Ney Matogrosso, uma das marcas do longa de ficção Noites de Reis, assinado por Vinícius Reis, é o silêncio, aquilo que não é dito por palavras. Os personagens interpretados por Bianca Byington e Enrique Diaz falam através da intensidade do olhar e dos pequenos gestos. “Ele tem um grau de perplexidade tão grande que pede o lugar da não-ação”, argumentou Enrique Diaz, completando: “É o lugar do sutil, do ritmo impalpável do tempo, o espaço do vazio. O que me ajudou muito foi pensar em portais que ele deveria atravessar para realizar a experiência do retorno, para continuar sua trajetória”.

 

Tanto Diaz quando Bianca Byington saudaram a cumplicidade com o diretor Vinícius Reis como essencial para a construção de seus personagens: “É uma personagem nada óbvia, a de maior carga dramática que já fiz no cinema”, confessou a atriz. Bianca, que afirmou não ter uma longa trajetória cinematográfica, disse ainda que, em 35 anos de carreia, foi a primeira vez que confiou realmente num diretor de cinema: “Eu não tinha ideia de como fazer. O roteiro era muito livre, não aprisionava, então resolvi confiar no Vinícius e ser obediente, o que normalmente não sou”, disse, sorrindo.

 

Noites de Reis tem longas sequências sem cortes, inteiramente calcadas no talento dos atores. “Foi uma opção nossa”, contou o diretor de fotografia Fabrício Tadeu. Ao comentar a longa sequência sem cortes da primeira conversa dos dois personagens centrais, no quarto do filho falecido, Tadeu revelou que “aquela sequência foi a primeira a ser filmada com os atores e foi muito importante porque se tornou paradigma de todo o filme”.

 

Vinícius Reis, que já assinou o documentário de longa-metragem A cobra fumou, e o longa de ficção Saens Peña, afirmou que o tema da família é um interesse constante em seu trabalho. “É o meu line-up”, declarou. E relatou seu fascínio ao ler o roteiro de Rita Toledo e constatar a presença de cenas de Folias de Reis. “Passei a infância numa cidadezinha do interior de Minas Gerais que tinha Folias de Reis muito presentes. O roteiro me trouxe a minha infância, a sala da minha avó, a correria na rua. Pesquisei a fotografia de Walter Firmo, a fotografia de José Medeiros, vi o documentário de Arthur Omar, Folia no Morro, e resolvi que ia falar da perda e do luto e, ao mesmo tempo, fazer um filme muito colorido”.

 

O diretor do curta de animação Phantasma, Alessandro Corrêa, provocou risadas da plateia ao revelar, sem pudor, que seu objetivo primeiro com o filme foi “arrancar muitas cabeças e criar cenários suntuosos e o texto foi perfeito para isso”. No curta, ele apresenta uma livre adaptação da obra O Fantasma da Ópera, romance do francês Gaston Leroux. “Gosto de trabalhar com textos de literatura, principalmente aqueles que já foram trabalhados ao extremo. Leio, deixo passar um tempo e depois faço o filme com aquilo que ficou da história. Neste caso, foi o fato de a personagem ser dúbia: ela flertava com o fantasma e com o mocinho”.

 

Segundo contou Alessandro Corrêa, a equipe de Phantasma está restrita a quatro pessoas que nunca se conheceram pessoalmente. “Nós fizemos tudo nos correspondendo pela internet. A voz feminina que aparece no filme é feita por um homem, para dar aquele tom mais teatral à interpretação. Este cantor mora na Suíça e a gente trocava o material pela internet”, afirmou. E ao ser indagado sobre as influências de seu traço na animação, mais uma vez Alessandro Corrêa surpreendeu: “Minha maior inspiração foram as charges femininas das revistas Playboy das décadas de 70 e 80, que a gente sempre achava embaixo das camas de algum tio”.

 

Outra revelação curiosa partiu da diretora Claudia Priscilla ao afirmar que o cartunista Laerte, personagem central e inspiração da ficção Vestido de Laerte, concorre ao prêmio de melhor atriz de curta-metragem: “Eu liguei pra ele para perguntar e ele me pediu isso, reclamando de o cinema ainda fazer esta separação de gêneros”, disse.

 

O filme que acompanha um périplo de Laerte pela cidade de São Paulo em busca de um certificado nasceu da amizade do codiretor, Pedro Marques, com os filhos do cartunista. “O Laerte ficou muito mais famoso pela transformação de gênero do que como cartunista”, afirmou Claudia, confirmando que a questão de gênero é uma constante em seu trabalho, assim como os limites entre ficção e documentário. A diretora também relatou que ela e Pedro fizeram várias entrevistas com Laerte antes de chegar ao formato final do roteiro: “Mesmo assim, o filme contou com momentos de improvisação, como aquele em que ele pergunta se pode pintar com café, logo no início do filme”, declarou Pedro. E Claudia concluiu: “Foi muito tranquilo trabalhar com ele. Ele nos ajudou muito e até nos deu o final do filme, ao contar a história de uma amiga que gosta da imagem da lágrima escorrendo com o rímel”.

 Texto: Carmem Moretzsohn – Objeto Sim