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19/09/2012

PRIMEIRO DEBATE DAS MOSTRAS COMPETITIVAS CENTRADO EM TEMAS COMO VIOLÊNCIA E DESLOCAMENTOS

Imagine um olho não pautado pelas leis da perspectiva, sem preconceito de composição lógica, que aceite ter uma percepção da vida cheia de aventura. É mais ou menos esta a proposta que o grande cineasta norte-americano Stan Brakhage (1933-2003) faz no emblemático texto Metaphors on Vision. O texto seminal do cinema de vanguarda, segundo o cineasta pernambucano Marcelo Pedroso, foi a inspiração para o curta documental Câmara Escura, exibido na primeira noite de mostras competitivas do 45º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO.

Câmara Escura concentrou bastante o interesse dos jornalistas presentes ao primeiro debate dedicado aos filmes das mostras competitivas de documentário. No curta, o diretor registra o ato de abandonar, diante de casas fortemente fechadas, no bairro de classe média Casa Forte, do Recife, uma caixa contendo uma câmera ligada. A intenção, segundo o fotógrafo Luiz Pretti, era "ir além da propriedade privada. Ver como uma câmera que não é governada provoca a ação das pessoas que não sabem o que ela é", disse. O resultado foi além: "O filme registrou também uma circunstância de enfrentamento. O sentimento de viver numa cidade violenta, enxergando a desigualdade social no cerne de tudo isso e como isso cria uma barreira segregadora que é extremamente hostil", explicou o diretor. Segundo Marcelo Pedroso, "o filme devolveu às casas a violência que elas provocam no espaço público", ao se cercarem de muros altos, cercas elétricas, câmeras de vigilância. Na verdade, disse o diretor, "o filme recai sobre a recusa da imagem".

Dirceu Cieslinski, personagem central do documentário Um filme para Dirceu, de Ana Johann, iniciou sua participação na conversa arrancando risadas da plateia: "Eu e o Greg somos palhaços por natureza. Por mim, não tem tristeza não. A minha ideia era fazer um filme com a gente fazendo arte, como aquela do porco, fazendo aquelas loucuras assim", disse, referindo-se a uma passagem do filme em que ele e seu grande amigo vestem um dorso de porco com roupa e chapéu e o colocam no banco dianteiro de um carro.

A forma de agir e o pensamento de Dirceu foram, de acordo com a diretora Ana Johann, o princípio norteador de todo o filme. Ela revelou: "Minha proposta sempre foi acompanhar a vida de Dirceu durante três anos; o resto foi acontecendo. Depois, ao ver o material, me dei conta de que o filme acabou retratando muito a cultura do sul, que a gente não vê muito no cinema brasileiro". Segundo Ana Johann, o filme tem três subtemas: o filme que Dirceu queria ter feito, o filme que ela fez e as coisas que foram acontecendo no meio do caminho. "O filme é sobre o encontro entre uma documentarista e um personagem que tem o sonho de viver da música".  E partiu do produtor Marcos Freder a revelação: "O filme teve custo total de R$ 300 mil e conseguimos captar apenas R$ 70 mil".

 

DESLOCAMENTOS

 No debate dedicado aos filmes de animação e ficção, que aconteceu em seguida ao de documentários, um tema em comum: o deslocamento dos personagens. Tanto na animação Linear, de Admir Admoni, quanto no curta Canção para minha irmã, de Pedro Severien, e no longa Eles voltam, de Marcelo Lordello, os personagens centrais das tramas estão em movimento. Representado pelo produtor, Rogério Nunes, Linear coloca em cena um personagem responsável pela pintura da faixa de uma movimentada avenida de São Paulo que a certa altura se rebela. "É uma representação lúdica da solidão de São Paulo", afirmou Rogério. E seguiu: "Eu e Admir vivemos a experiência de morar fora de São Paulo durante bastante tempo e voltar. E posso assegurar que é muito doloroso. A percepção da insignificância nas grandes cidades é muito grande. Linear mostra isso: o personagem é insignificante, mas depois revela como pode ser importante".

A história do curta Canção para minha irmã surgiu, segundo informou o diretor Pedro Severien, de um livro de contos que ele escreveu tempos atrás. "Depois da enchente em 2010, que eu vi toda aquela tragédia acontecendo bem do meu lado, decidi recuperar a história e fazer o filme. E usei a ideia do movimento como arquétipo da jornada. Quando você se abre para o movimento, se abre também para a surpresa de viver".

E é justamente sobre as surpresas reservadas por uma jornada que trata o longa Eles voltam, de Marcelo Lordello. No filme, uma menina é deixada pelos pais com seu irmão às margens de uma rodovia e começa a empreender um percurso diferente de tudo o que havia vivido até então. Disse o diretor: "Podia acontecer de tudo com aquela menina, mas eu quis que ela contasse com a sorte. Quis que as pessoas tivessem um pouco menos de medo, demonstrar que existem outras formas de vida", avisou. E justificou sua opção: "A viagem da personagem Cris foi a que eu fiz no processo de pesquisa. Eu me relacionei com estas pessoas. Queria fazer um filme sobre o Brasil, dar uma pincelada no interior. A personagem vai, aos poucos, descobrindo o país em que ela vive". 

Texto: Carmem Moretzsohn - Objeto Sim Projetos Culturais Ltda