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22/09/2012

QUARTO DEBATE CONFIRMA A FORÇA DO CINEMA PERNAMBUCANO

O sotaque de Pernambuco predomina nos ambientes de discussão montados pela coordenação geral do 45º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO no Hotel Kubitschek Plaza. O estado emplacou sete dentre os 30 filmes das mostras competitivas de documentário, animação e ficção. No quarto debate das mostras competitivas, realizado na manhã do sábado (22), os dois realizadores dos longas-metragens são do Recife e, sob mediação da jornalista Maria do Rosário Caetano, revelaram motivações e procedimentos que levaram a Doméstica e Era uma vez eu, Verônica.

 

Como tem sido prática desta 45ª edição, a rodada de debates começou pelo formato documental. Na mesa, os realizadores de Empurrando o dia, os mineiros Felipe Chimicatti, Pedro Carvalho e Rafael Bottaro, e o pernambucano Gabriel Mascaro, de Doméstica, acompanhado do montador do filme, Eduardo Serrano, e da produtora executiva, a inglesa Rachel Ellis.

 

Filme que, como o próprio nome indica, faz uma alegoria da passagem do tempo, Empurrando o dia nasceu, segundo seus realizadores, da ideia de falar do cotidiano de uma parcela significativa dos mais de 800 municípios do estado de Minas Gerais, formada por cidades muito pequenas. “Quando a gente chegou no interior, queria evitar aquele olhar de que nada acontece, ao mesmo tempo em que buscávamos uma representação do tempo”, explicou Pedro Carvalho. “E tudo o que está registrado foi acontecendo ao nosso redor: a forte presença dos evangélicos, a cultura política mineira, muito arraigada à família, os causos, as piadas. Nós não colocamos limites para o tempo das entrevistas. Deixamos que cada um falasse”.

 

Segundo revelaram os jovens cineastas, que se conheceram ainda na universidade, a intenção primeira de Empurrando o dia era observar a passagem do tempo. “Fomos a uma cidade muito pequena no último dia do ano, montamos o tripé para a câmera e operamos muito pouco. Quisemos ter a liberdade de deixar também o tempo rolar”, disse Pedro. E Felipe comentou: “Quando vimos que o relógio da igreja da cidade estava parado há mais de 30 anos, construímos o discurso do filme em cima disso”.

 

Filme singular, que conta com o trabalho de jovens voluntários espalhados por quatro cidades do Brasil, Doméstica apresenta o cotidiano de empregadas de sete famílias de quatro metrópoles brasileiras: Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Segundo explicou Gabriel Mascaro – que, aos 28 anos de idade, assina em Doméstica seu quarto longa – a proposta foi simples: buscar o olhar de jovens, entre 15 e 16 anos, sobre as empregadas que vivem em suas casas desde que eles eram pequenos. “Quis fazer com que os jovens, que são observados por estas domésticas desde que nasceram, tirassem uma semana para observá-las, promover esta pequena inversão”, explicou o diretor.

 

Na prática, o trabalho foi feito depois de uma grande pesquisa em seis cidades – duas delas eliminadas da versão final –, com divulgação em escolas públicas e particulares e um convite a jovens que quisessem se integrar ao projeto. Os que aceitavam o desafio recebiam, em casa, uma câmera, um tripé e um microfone, além de cartilha com dicas sobre filmagem, captação de som, temas das entrevistas e o procedimento de pedir às retratadas autorização de uso da imagem por escrito. Conta Gabriel: “Quando começamos a receber o material, entrei em pânico. Pensei: lascou! Mas depois que recebemos o material gravado pelo jovem do Rio de Janeiro, com aquela sensibilidade, aquelas imagens, os silêncios que dizem tudo, fiquei mais tranquilo”.

 

Segundo Gabriel Mascaro, as filmagens evidenciaram a diversidade na dimensão ética do relacionamento entre patrões e empregados e também as variações de manifestação do afeto. O diretor divertiu a todos ao contar que a utilização do tripé, mais do que um dispositivo técnico, serviu para convencer os jovens a filmar mais: “Cara, eles eram muito preguiçosos. Ficavam uma semana com a câmera e nos enviavam 10 minutos de gravação. Então, introduzimos o uso do tripé, assim, eles não tinham que ficar carregando nada. Era só montar, fazer o enquadramento e dar o play”, disse sorrindo. “Os jovens hoje filmam muito, editam muito para colocar na internet. Foi nisso que a gente apostou”, revelou a produtora Rachel Ellis. Mas Mascaro salientou: “Quando optamos pelo tripé, rompemos também com este dispositivo conhecido deles, que é a câmera livre, na mão. Assim, apresentamos a possibilidade de um outro olhar, de fugir ao cotidiano”.

 

Para Mascaro, o documentário foi concebido de forma a fugir da generalização. “Não queríamos criar um material para estudo sociológico”, provocou. “Não é um filme sobre as relações trabalhistas no Brasil e sim sobre as relações de afeto estabelecidas em cada casa, com cada doméstica”. E Eduardo Serrano concluiu: “Optamos por apresentar as narrativas em blocos para deixar mais aberta a percepção do público sobre cada personagem. E criamos uma estrutura que vai aprofundando o afeto e vendo o quanto ele é capaz de distorcer esta relação trabalhista”.

 

SOB O SIGNO FEMININO

 

Foi o encantamento provocado pela atriz Hermila Guedes, durante as filmagens de Cinema, aspirinas e urubus, de 2005, que despertou no cineasta Marcelo Gomes o desejo de conceber uma personagem especialmente pela ela. Pronto o filme (no qual Hermila contracena com João Miguel, seu parceiro também no longa Era uma vez eu, Verônica), Gomes escreveu um conto apresentando uma personagem comum, dentro de uma narrativa cotidiana, com foco no universo feminino. Surgiu assim o primeiro tratamento do longa de ficção Era uma vez eu, Verônica, exibido na noite de sexta-feira na mostra competitiva do 45º FESTIVAL DE BRASÍLIA.

 

Para chegar à construção do personagem Verônica, que dá título ao longa, Marcelo Gomes confessou ter entrevistado várias mulheres jovens, com perfil semelhante ao da personagem. Foram conversas de duas ou três horas de duração que, segundo Gomes, podem virar um longa documentário. “Eu tentei me impregnar ao máximo do olhar dessas mulheres. A partir destas conversas, descobri várias questões que estão colocadas no filme”, contou o diretor. E enumerou os aspectos abordados: “A sociedade está cada dia mais capitalista, mais individualista; há uma imensa necessidade de sucesso profissional; a liberdade conquistada é muito grande mas fica a angústia de não saber que caminho escolher; as relações estão mais horizontais; e a maturidade está vindo cada vez mais tarde para estas pessoas”.

 

Com estas revelações em mãos, o cineasta reescreveu o conto que foi base para o filme. “Verônica é uma personagem que tem dúvidas, é cheia de contradições, enfrenta problemas cotidianos e para quem o sexo é a grande válvula de escape”, explicou o diretor. Segundo ele, o filme segue o tom naturalista e íntimo de um diário pessoal. “Decidimos construir as cenas de sexo da mesma maneira de toda a narrativa: num tom íntimo, pessoal. E os atores confiaram em nós. Graças a eles, as cenas ficaram extremamente naturais”. Protagonista e inspiração primeira do longa, Hermila Guedes acrescentou: “Como eu não tenho um estudo formal de interpretação, a entrega ao personagem é o meu instrumento de trabalho. Mas esta entrega só é possível com confiança. Eu comecei a trabalhar em cinema com Marcelo, com João (o produtor João Vieira Junior). Fora a parceria do João Miguel, que é muito antiga. A gente tem uma química, uma paixão platônica”.

 

Em foco também no debate, o curta Eu nunca deveria ter voltado é direção conjunta de três amigos de faculdade, Eduardo Morotó, Marcelo Martins Santiago e Renan Brandão. Segundo contou Morotó, a ideia do filme é bem antiga, quando ele ainda estudava e se apaixonou por um texto de Roland Barthes sobre a experiência da perda – Diário de Luto, escrita por Barthes sob o impacto da morte de sua mãe. “Eu tinha perdido meu pai e queria fazer um filme sobre a experiência da perda, da saudade. Tem muito de mim neste filme”, revelou. E a fotografia busca acompanhar o tom das velhas fotografias esquecidas em baús, como diz a fotógrafa Helô Duran: “A gente tentou levar a saudade para a fotografia, colocar no cinema o tom das fotos em papel. Por isso, trabalhamos com elementos e tons ligados à terra”.

 

A animação Valquíria, do mineiro Luiz Henrique Marques, estava representado pelo produtor Edgard Paiva. Partiu dele a revelação de que o filme é trabalho de conclusão de curso. “O Luiz levou muito tempo para construir os bonecos”, contou o produtor, que no ano passado esteve no Festival de Brasília com o curta 2004. E concluiu: “É uma homenagem à técnica Stop Motion”.

Texto: Carmem Moretzsohn – Objeto Sim