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21/09/2012

TERCEIRO DEBATE EXPLORA SINGULARIDADES E LINGUAGENS

 

O hall do salão Caxambu, do Hotel Kubitschek Plaza, ganhou ares domésticos com a chegada do diretor Cao Guimarães, sua esposa, Florencia Martínez, e o bebê Otto, os dois últimos personagens e inspiração do documentário Otto, o terceiro a ser exibido na Mostra Competitiva de Documentários do 45º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO. Carrinho de bebê, babá e um certo frisson adiantavam o tom informal que caracterizaria a conversa com o cineasta mineiro. Sob mediação da jornalista Maria do Rosário Caetano, Cao Guimarães dividiria a mesa com os realizadores do curta A Guerra dos Gibis, Thiago Brandimarte Mendonça e Rafael Terpins.

 

Oitavo longa-metragem da carreira, Otto talvez seja o filme mais intimista de Cao Guimarães, no qual ele acompanha a gravidez da esposa, a uruguaia Florencia Martínez, com quem está casado há pouco menos de dois anos, até o nascimento do filho, Otto. E foi justamente a opção de filmar a intimidade que motivou a primeira questão colocada ao diretor: “Eu comecei a filmar sem saber que ia fazer um filme”, explicou. “Em novembro de 2010, numa sessão de Andarilho, no Cine Casablanca, em Montevidéu, estávamos apenas eu, a curadora que tinha me convidado a ir e uma espectadora, a Flor. Numa cena que eu considero muito importante para a compreensão do filme, Flor se levantou para ir ao banheiro. Quando acabou a projeção, fui até ela e disse que ela teria que ver o filme de novo. Ela acabou saindo comigo pra jantar e logo a gente se apaixonou. A partir daí, Flor passou a viajar comigo e comecei a filmá-la, aquela coisa de apaixonado, meio babão”, disse divertido.

 

 Cao Guimarães contou que pouco depois, em Paris e de malas prontas para Istambul, Florencia Martínez descobriu que estava grávida. “Eu fui registrando tudo, sem saber no que isso ia dar. Quando vi as imagens, percebi que podia fazer um filme, que ainda tínhamos sete meses de transformações pela frente e um fim expressivo: o nascimento de uma criança. Então, continuei filmando”. De acordo com o cineasta mineiro, Otto dá sequência a uma obra que se caracteriza pela ruptura: “todo filme meu é um divisor de águas na minha carreira. É sempre diferente do outro”. Mas há um ponto em comum, segundo revela Cao: “Tudo o que fiz na vida é relacionado ao que eu vivi. Meus trabalhos se relacionam com a minha experiência real na vida. É sempre uma interação arte-vida. Este parece mais pessoal, mais intimista e talvez seja o mais arriscado justamente por isso, porque não é fácil a exposição”.

 

Os dois diretores de A Guerra dos Gibis, Thiago Brandimarte Mendonça e Rafael Terpins, fizeram questão de reafirmar seu desejo de recuperar um pouco da cultura marginal do centro de São Paulo. “Existem muitas histórias que ficam submersas. Quando a gente vai na Boca do Lixo, onde se produziu e se distribuiu esta produção de quadrinhos, estas histórias surgem. É uma região que sempre foi marginal e que sempre viveu esta discussão da revitalização local desde o século XIX”, contou Thiago. E explicou: “O recorte do filme é esse reduto”.

 

A Guerra dos Gibis é o terceiro filme dos dois cineastas que tratam da região da Boca do Lixo. É baseado no livro homônimo de Gonçalo Junior, que foi escolhido o melhor livro teórico sobre quadrinhos, em 2005. “Foi fascinante conhecer o trabalho destas pessoas. Apesar de existir uma publicação – o álbum Flores Manchadas de Sangue – sobre as primeiras histórias em quadrinhos brasileiras com samurais, este universo ainda é muito desconhecido no Brasil. Queremos resgatar estas pessoas que foram afundadas na ditadura”, disse Rafael Terpins. O cineasta também revelou que está para ser relançado um álbum com as aventuras do personagem Chico de Ogum, um clássico da época.

 

OLHARES ORIGINAIS

 

No espaço reservado ao debate dos filmes de animação e ficção, as atenções de concentraram no longa-metragem de estreia do pernambucano Daniel Aragão, Boa sorte, meu amor, e no curta A mão que afaga, da baiana radicada em São Paulo, Gabriela Amaral Almeida. O curta de animação, O Gigante, estava representado pelo produtor, Igor Pitta Simões, que comentou a coprodução do Brasil com Portugal, Reino Unido e Espanha. “Fazer uma animação no Brasil é sempre muito complicado. É difícil conseguir recursos, por isso, sempre que possível, buscamos fazer coproduções”.

 

A captação também foi assunto do primeiro comentário de Daniel Aragão: “Este é o meu primeiro longa, mas aqui no Brasil nunca se sabe se haverá recursos para um próximo”, disse, sorrindo. O diretor pernambucano que já assinou três curtas-metragens, realizou, no longa  Boa sorte, meu amor, um filme singular: todo filmado em preto e branco e pautado pela música. “Todos os meus filmes são filmados em preto e branco. Eu gosto da fotografia P&B. Neste especialmente, eu filmei lugares onde eu vivo e queria ter o distanciamento necessário, queria que Recife deixasse de ser a minha Recife e a imagem em preto e branco me dava esta sensação” explicou. E confessou: “Eu gosto muito dos filmes em P&B da primeira metade do século XX. Acho que a fotografia em P&B oferece mais oportunidade e espaço para as sombras”.

 

Boa sorte, meu amor é um filme que parte da metrópole para o interior, mostra um retorno dos personagens centrais a suas raízes e, segundo Daniel Aragão, o filme surgiu depois da morte de sua avó. “Fiquei sabendo de várias histórias de família e percebi a importância do meu passado. A fazenda que está no filme era da minha família e eu já sabia o que ia encontrar, que não seria a mesma de antes. A minha experiência pessoal ficou suspensa por 20 anos. Só voltei quando estávamos filmando e decidi eu mesmo fazer a câmera daquela cena. Queria viver aquela experiência”.

 

Daniel Aragão revelou que, em seu trabalho, a música é sempre referencial. “Steve Wonder, Stravinsky, eles foram minhas referências para o filme, mais do que qualquer filme que tenha visto ou cinematografia deste ou aquele diretor ou escola. Eu ouço músicas e vejo algumas imagens. Pra mim, a relação com a música começa antes de filmar. E não acho que no filme a música floreia algumas cenas. Ela sugere a existência de um mundo paralelo”. E o diretor surpreendeu a plateia ao afirmar: “Pra mim, a música vem antes de tudo. Fala sério: não tem nada mais importante do que a música!”

 

A diretora Gabriela Amaral Almeida, do curta A mão que afaga, contou que o filme é um desdobramento temático de sua obra anterior, Uma primavera, de 2011. “Meus personagens são sempre femininos”, disse. A mão que afaga tem um tom intimista, ao mostrar o cotidiano de uma operadora de telemarketing e seu filho na cidade de São Paulo: “Ela é atendente de telemarketing, tem que falar comercialmente com milhares de pessoas o tempo todo, mas na vida pessoal tem problemas em se comunicar. Hoje, as pessoas falam muito, mas não se conectam”, justifica a cineasta.

 

Gabriela Amaral Almeida tem feito processos colaborativos com a Companhia Livre, grupo de teatro paulistano dirigido por Cibele Forjaz (que faz participação no filme, em off), assinando a dramaturgia do espetáculo A Travessia da Calunga Grande, livremente inspirado no mito de Édipo. A diretora não descarta a influência da experiência teatral em sua obra cinematográfica: “Qualquer coisa que eu filmo passa pelo interior dos personagens. São projeções do que os personagens sentem. Eu enxergo os espaços não com o olhar do documentarista, mas passando pelo interior e pela vivência dos personagens”.

Texto: Carmem Moretzsohn – Objeto Sim