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24/09/2013

A POTÊNCIA DO DISCURSO CINEMATOGRÁFICO EM FOCO NO ÚLTIMO DEBATE DAS MOSTRAS COMPETITIVAS

Sob a mediação da jornalista Maria do Rosário Caetano, aconteceu no final da manhã e início da tarde desta terça, 24, o sexto e último debate dos filmes concorrentes às mostras competitivas do 46º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO. Dedicada aos filmes de documentário, a primeira parte da conversa contou com a presença dos diretores Douglas Soares (do curta Contos da Maré) e Noilton Nunes e Sílvio Tendler (respectivamente autor e personagem de A arte do renascimento – uma cinebiografia de Sílvio Tendler), além de outros integrantes das equipes dos dois filmes.

Curta que recupera narrativas fantasiosas de pioneiros moradores do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, Contos da Maré tem ritmo e linguagem propositalmente marcados por um clima de suspense. “Fizemos o uso das máscaras (de lobo, cobra e porco) para fazer referência ao cinema de gênero, assim como a trilha, que trabalha com o gênero do suspense”, avisou o diretor Douglas Soares. Segundo ele, para caracterizar as alterações que o local sofreu ao longo de 40 anos, foram incluídos sons de gaivota, de água, “para mostrar como era o lugar antes da favela existir”.

A irreverência de Noilton Nunes e de Sílvio Tendler, amigos de toda a vida, deu o tom ao debate sobre o filme A arte do renascimento – uma cinebiografia de Sílvio Tendler, último concorrente da categoria de longa-metragem de documentário a ser exibido na mostra competitiva. Coisa de amigo, os dois se cutucaram e provocaram o tempo todo. “Eu morro de vergonha dessa proposta do Noilton de mudar o Hino da Independência”, disse Tendler, numa referência ao convite que o diretor do longa fez à plateia do Festival de mudar a frase “ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil” por “ou ficar a Pátria livre ou viver pelo Brasil”. Disse Sílvio Tendler: “Nós vivemos as mesmas crises, o Golpe de 64 nos atingiu em pleno vôo, quando éramos adolescentes e estávamos prontos para começar a aprender a pensar, a escolher o que queríamos ler. Quem não viveu esta geração não tem idéia do que foi”. E complementou: “Vivemos sob a ética de guerrilha do Che Guevara, que doava a vida pelos ideais, mas depois entendi que o importante não é morrer pela revolução e sim viver por ela, como Mandela, que passou décadas preso e saiu sem espírito vingativo para criar uma África Sul pluriracial”.

A arte do renascimento – uma cinebiografia de Sílvio Tendler é documentário que recupera a trajetória cinematográfica – e consequentemente política, já que o cinema de Tendler é um cinema político – e de vida do autor de filmes como Os Anos JK e Jango. Tendler passou por um grave problema de saúde que o deixou tetraplégico e está em processo de recuperação, cheio de planos e projetos de trabalho. O diretor, Noilton Nunes, abre espaço para Sílvio Tendler apresentar seu pensamento e planos para o futuro: “Eu odiaria um filme que buscasse mostrar meus defeitos e não minhas qualidades”, confessou Sílvio Tendler. “Este filme mostra uma pessoa que passou a vida fazendo cinema político, que lutou muito e que ainda tem força para continuar produzindo”.

Segundo explicou Noilton Nunes, quando bate na tela o filme desperta sentimentos especiais que mexem com o público. “Fomos colocando tudo muito naturalmente. Na última parte, que retrata a recaída que ele teve e sua internação no hospital, a gente editava as cenas com ele lá. Quis mostrar, sobretudo, os obstáculos que ele tem tido que vencer”. Embora se trate da cinebiografia de diretor brasileiro, o filme conta com legendas em francês. “O Alambique Central, que fez toda a arte do filme, tinha a primeira intenção de fazer a primeira exibição na França. Quando surgiu o Festival de Brasília, quisemos colocar e íamos trocar, mas a montadora disse que assim ficava mais chique”, brincou.

O diretor confessou que o custo do filme ficou em R$ 5 mil – usados para pagamento de passagens, taxis etc. “Claro, não paguei os direitos de exibição dos filmes do Sílvio, senão subiria para R$ 500 mil. Mas é o tipo de filme que fazíamos nos tempos do Festival de Cinema Amador, no Rio. Havia a vontade de fazer, fazíamos com o que tínhamos. Com este filme também foi assim”, revela. “Agora, sei que se quiser que o filme tenha uma carreira vou ter que me concentrar nesta coisa dos direitos autorais”.

Bem humorado e ávido por falar, Sílvio Tendler fez questão de relatar os vários projetos que vem tocando simultaneamente. “Mesmo quando estive no hospital, minha equipe foi tocando as coisas sozinha. Eu ia só dando as orientações. Para fazer um documentário é preciso um tempo de maturação. Estou fazendo um documentário sobre os militares que eram dissidentes do governo militar e foram perseguidos também, os advogados que defenderam presos políticos, um outro chamado Alma Imoral, com o Rabino Nilton Bonder, e tudo está em processo. Mas isso é normal: em 1989 eu já tinha começado Utopia e Barbárie, que eu lancei em 2010”.

 

Cinema autoral
O estado de Minas Gerais esteve muito presente na segunda parte do debate da terça, 24, dedicado aos filmes de ficção e animação da última noite das mostras competitivas do 46º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO. Na mesa, dois curtas realizados na cidade, a animação Quinto Andar, de Marco Nick, e Tremor, do diretor Ricardo Alves Jr., e um longa filmado no estado, Exilados do Vulcão, de Paula Gaitán, produção do Rio de Janeiro, rodada em Cataguazes.

Animação que mostra o encontro entre a morte e um solitário trabalhador, Quinto Andar é, para seu diretor Marco Nick, uma busca. “Foi um desafio pessoal, eu queria fazer algo diferente de tudo o que já tinha feito, queria ver qual era o meu traço”, disse o animador, complementando: “Busquei a simplicidade nesta busca pela imagem”.

“Um filme de trajetória”. Assim o diretor Ricardo Alves Jr. define seu filme Tremor, que apresenta a busca de um homem por sua esposa desaparecida. O curta é protagonizado por Elon Rabin, que também foi ator do primeiro filme de Ricardo “Ele me provoca desejos de imagens”, confessou Ricardo. Tremor mostra o percurso transcorrido por Elon de sua casa ao IML, até encontrar o corpo de sua esposa. “Antes do filme nasceu o documentário, mas depois o formato se transformou”. A parceria entre Ricardo Alves Jr. e Elon Rabin terá prosseguimento com o longa que o diretor prepara e que já tem título escolhido: Elon Rabin acredita na morte. “Vai ser um filme sobre o desaparecimento”, revela o diretor. “Nesse filme, ele se constrói já como figura de ficção”.

A cineasta Paula Gaitán chega, com Exilados do Vulcão, a seu primeiro longa-metragem de ficção. E, para ela, o filme não é nada além de um estado. “O filme tem planos de 360°, é um filme circular. Faz movimentos longos para falar de sentimentos. É um mergulho profundo nesse tempo de escrita, de imagens mentais e trabalha com uma série de camadas. Não sei se o filme é bom ou não, mas sei que ele é potente”.

Exilados do Vulcão mostra a trajetória de uma mulher em busca dos vestígios de um homem a quem conheceu e amou no passado. A história parte do romance Sobre a Neblina, de Christiana Tassis, para ganhar uma leitura particular da diretora Paula Gaitán e de sua equipe de assistentes. “O cinema contemporâneo evoca uma imagética muito rica. Os diretores já acumularam informações tão vastas, que a gente tem um HD dentro bem cheio com o que transita no nosso imaginário. Essas imagens que estão no filme já existiam dentro de mim”.

Para escolher as locações do filme, Paula percorreu todo o estado de Minas Gerais, até chegar ao pequeno distrito de Aracati, distante 23 km de Cataguazes. “O filme tem muito a ver com as minhas reminiscências”, confessa a diretora, que nasceu no interior da Colômbia, filha de mãe brasileira e pai colombiano. “Não foi uma opção estética; foi uma escolha honesta. O lugar se parece muito com o que vivi na minha infância, senti muito intimidade com aquele local”, disse, complementando: “Eu gosto de um cinema físico, de tempo de observação”.

Até chegar ao formato atual, foram oito roteiros, trabalhados e retrabalhados: “Meu cinema não é de funções e sim de relações que estabelecem. O afeto permeia o cinema que amo. Mas as coisas não brotam, elas têm uma base teórica, estética. Tem uma coisa conceitual muito forte no meu trabalho. Eu começo com tudo pra depois esvaziar e chegar ao mínimo. Tudo que é trivial vai ficando pelo caminho”.


A 46ª edição do FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO tem coordenação geral de Sérgio Fidalgo, coordenador de Audiovisual da Secretaria de Estado de Cultura do GDF. O Patrocínio é da Petrobras, BNDES, Terracap e BRB.  Apoio da Lei de Incentivo à Cultura, Inframérica (Aeroporto de Brasília), Câmara Legislativa do Distrito Federal, Canal Brasil, TV Brasil, Revista de Cinema. Realização: Instituto Alvorada Brasil, Secretaria de Cultura, Governo do Distrito Federal e Ministério da Cultura.

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