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23/09/2013

Biografias musicais e paisagens sonoras em cena

Cineastas e autores de trilhas sonoras se reuniram na tarde desta segunda-feira, 23, para apresentar e debater o modo como o cinema nacional vem narrando as mais distintas expressões musicais brasileiras. Coordenado por Tânia Montoro e mediado pelo professor Gustavo Castro, da UnB, o seminário Cinema em alto e bom som, realizado no 46º FESTIVAL BRASÍLIA DE CINEMA BRASILEIRO, trouxe exposições e provocações acerca da produção nacional recente e como a tradição vem empreendendo uma releitura musical de artistas, situações e culturas. Integraram o encontro os cineastas Lírio Ferreira, Marcelo Machado, Ana Rieper, René Sampaio e o músico e autor de trilhas Philippe Seabra.

 

Para o experiente e premiado diretor pernambucano Lírio Ferreira, diretor dos documentários Cartola – Música para os Olhos (2007) e O Homem que Engarrafava Nuvens (2009), sobre o “doutor do baião” Humberto Teixeira, além dos filmes Baile Perfumado e Árido Movie, “a música é essencial na história e composição da identidade do Brasil”. Segundo avalia, “o cinema demorou a se dar conta disso”. Segundo avalia, “experiências isoladas ocorreram com Antônio Carlos Fontoura, diretor de documentários como Heitor dos Prazeres, Os Mutantes, Chorinhos e Chorões, e Leon Hirshman, diretor de Nelson Cavaquinho e Bahia de todos os sambas – sem dúvida, filmes sensacionais, mas pouco representativos em relação à extensão da produção cinematográfica do país”.

 

MÚSICA EM CENA - “Para mim um exemplo capital é o filme de Humberto Mauro, o clássico curta-metragem A Velha a fiar, de 1964, com a música popular homônima cantada pelo trio Irakitan. Foi a invenção do videoclipe com um ritmo incrível de montagem e uma estética que passou a pautar gerações e gerações”, afirmou Lírio.

 

“O cinema atualmente está pagando essa dívida com a música. Há muitos filmes agora que dão conta de biografias musicais”, analisa, contando que iniciou sua carreira no cinema com filmes de ficção: "não tinha me tocado ainda para o quanto a música já protagonizava as cenas em Árido Movie e Baile Perfumado. Sobrevivi por muito tempo fazendo videoclipe no Rio de Janeiro e isso deve ter influenciado meu modo de fazer cinema”, acrescenta. “Percebi o quanto a música estava impregnada nos meus outros filmes. Já estava no meu DNA cinematográfico”, diz, complementando que embora o Baile seja um longa de ficção, a trilha sonora de Chico Sciense, Mestre Ambrósio e Mundo Livre, representou a primeira coletânea do mangue beat, constituindo uma referência para todo o Brasil.

 

A respeito do filme Cartola, Lírco Ferreira relatou que o projeto não foi uma iniciativa dele, mas nasceu de um convite do Itaú Cultural, que buscava visões de pessoas que não fossem do Rio. Também o filme O homem que engarrafa nunves deriva de outro convite, dessa vez da filha do mestre do baião Humberto Teixeira, a atriz Denise Dumont. “Gilberto Gil chegou a comentar que consegui mostrar nesse filme as dinastias do baião e do samba”.

 

“O que me interessa verdadeiramente é essa zona que existe entre documentário e ficção e a música é o instrumento mais poderoso para viajar nessa fronteira”, defende Lírio. De acordo com ele, o resultado de bilheteria de um filme como Tropicália, de Marcelo Machado, com 80 mil espectadores, ainda é insatisfatório, dada a extensão continental do país. “Mesmo Cartola, em 2007, com 70 mil espectadores, recorde de bilheteria do ano, não teve o alcance merecido”, avalia. “Além do preconceito que envolve o gênero, o documentário musical traz consigo uma grande barreira, a dificuldade de exibir esses filmes”. “Chegar ao shopping é fácil, difícil é a pessoa passar pela catraca do cinema, pois os preços dos ingressos ainda são muito caros”.

 

Por fim, Lírio falou da responsabilidade que o autor tem quando trabalha com documentário. “Pode ser uma armadilha, pois é algo que chega forte no coração das pessoas, e o perigo é os espectadores não enxergarem cinema na produção”.

 

EXPERIMENTALISMO E SINGULARIDADE - O premiado diretor de Tropicália, Marcelo Machado, com ampla experiência em telejornalismo e publicidade, passou a ser conhecido do público cinéfilo já nos anos 80 com seus trabalhos em vídeo experimental, posteriormente incursionando pelo gênero documentário. “O ambiente do cinema é novo para mim, já que vim da televisão e da publicidade”, diz, contando que, quando pensa em documentário musical, sua primeira lembrança está associada aos filmes Roberto Carlos em ritmo de aventura e Hard Day’s Night, dos Beatles.

 

Ao falar de sua formação cinéfila e musical, relata que, em sua cidade, Araraquara (SP) não havia sequer um cine-clube. “Em compensação, assisti tocando ao vivo na universidade gigantes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nelson Cavaquinho, Jards Macalé”.

 

Outra referência para Marcelo é o “incrível documentário Novos Baianos Futebol Clube, de Solano Ribeiro, produção sensacional de 1973 que ficou escondida até cair no Youtube e hoje tem mais de 5 milhões de views. A primeira projeção ocorreu há pouco tempo em São Paulo”.

 

Sua trajetória iniciada nos anos 80 foi essencial na orientação de seu olhar cinematográfico. Em 1981, com os ex-colegas de curso Fernando MeirellesBeto Salatini e Paulo Morelli, criou a produtora Olhar Eletrônico 2 , grupo criativo que se tornou conhecido pelo pioneirismo e pelo caráter experimental de suas produções em vídeo – época em que documentou o surgimento da chamada vanguarda paulista, com nomes como Tom Zé, Arrigo Barnabé e o grupo Premeditando o Breque. “Na TV Gazeta, pude fazer experimentação em videoclipe, era um território de liberdade, pois estava um pouco na raiz. Já na MTV tive problemas com a resistência da emissora com produções e clipes brasileiros”.

 

“Quando comecei o projeto do documentário Tropicália, por causa da minha experiência maior em TV, videoclipe e publicidade, pude levar as estratégias dessas linguagens para o filme. Por isso afirmo que meu trabalho é híbrido, apesar de ter me valido só de material de arquivo”, diz, aproveitando para contar que um pouco antes da finalização do seu filme percebeu que Antônio Venâncio, diretor de Uma Noite em 67, “havia utilizado as melhores coisas que pretendia usar. Como precisava de material inédito, convidei-o a me ajudar na pesquisa do meu filme”.

 

Marcelo Machado afirma que a singularidade de seu trabalho de documentarista é não usar de modo ortodoxo e tradicional a canção como objeto fílmico. “Afasto-me do clássico formato da entrevista, plano e contraplano. Por isso, optei por material de arquivo”. Para o cineasta, sua grande referência de cinema sonoro no país é o Baile Perfumado, de Lírio Ferreira. “É possível cinema documental que escapa das abordagens mais tradicionais, reconheço que isso está no filme do Nelson Pereira dos Santos sobre Tom Jobim”, conclui.

 

PAISAGENS SONORAS DO BREGA – Ana Rieper, diretora de Vou Rifar Meu Coração (2011), documentário sobre a influência da música brega no cotidiano brasileiro, expôs sua experiência de composição de paisagens sonoras para ilustrar a diversidade da cultura brasileira. “Sempre fui aficionada por música, lembro-me de um disco de Erasmo Carlos que ouvia sem parar quando tinha cinco anos de idade. Cresci lendo fichas técnicas de discos da MPB. De 98 a 2002, quando morei em Sergipe, ia muito ao interior – foi quando comecei a ouvir música brega e me interessar verdadeiramente pelo gênero”, conta.

 

O fato de ser geógrafa de formação colaborou para intensificar na cineasta o interesse entre as músicas e os lugares de origem, bem como a questão da territorialidade. “Esse olhar está presente desde Saara, meu primeiro filme, que retrata um lugar de comércio popular no centro do Rio, ocupado a partir dos anos 40 por imigrantes de diversos lugares do mundo, especialmente árabes e judeus, inclusive. Nesse filme, pude mostrar a música como narradora de cena para falar de influências étnicas distintas - libanesas, judaicas, e como tudo terminou em samba e em Gal Costa cantando Jorge Benjor”. Já seu outro documentário, Mataram meu gato, mostra a realidade de blocos de samba na favela da Maré.

 

Seu último filme, Vou rifar o meu coração, fala de “sentimento, afetos, dramas amorosos, de lugares que têm a ver com música”. Segundo Ana Rieper, seu propósito foi fazer “cinema-cinema, ou seja um cinema documental desvinculado das referências de TV e do lugar-comum de entrevistas e imagens comentadas”. Apesar de o filme estar ancorado em entrevistas, a documentarista relata que organizou seu plano de filmagem com imagens narradoras, que contêm o imaginário amoroso, erótico e político a partir da música brega, elemento central na história. “É um filme que não teve preocupação de representar essas canções, mas entendê-las como representação de si, como algo íntimo, pessoal e intransferível das pessoas que as cantam”, conclui.

 

FAROESTE CABOCLO – Por fim, o brasiliense René Sampaio, diretor do longa-metragem Faroeste Caboclo (2013), destacou como marco em sua formação o filme Baile Perfumado e “toda a genial junção com o movimento mangue beat”. Apesar de jovem, apenas 39 anos, confessou-se nostálgico: “Minha história com a música vem de moleque, fui formado por Elis Regina, Luiz Gonzaga, Chico, Caetano e pelas bandas Legião Urbana, Detrito Federal, Plebe Rude. As músicas de hoje quase não significam mais nada para mim. Quase tudo que importa para mim hoje vêm da primeira infância até a faculdade. O que se produziu nos últimos dez anos não representa absolutamente nada para mim.

“Passei a gostar de cinema a partir do primeiro filme brasileiro que assisti, Saltimbancos Trapalhões – seminal para mim”, conta René. “Aos 14 anos de idade, ouvi a música Faroeste Caboclo. Aí já pensei: essa música dá um filme”. “Mas o filme que visualizo quando ouço a música é diferente do filme que fiz, a tradução da música como cineasta e não como fã”, explica, ressaltando que tinha vontade de incluir a história do rock nos anos 80 no filme, daí ter escolhido o Philippe Seabra, do Plebe Rude, para a pesquisa e a trilha sonora.

 

Também presente ao debate, Philippe Seabra  relatou que seu interesse por cinema vem de sua formação como músico, além do fato de ter trabalhado, nos anos 80 e 90, com o cineasta espanhol Alberto Salvá, em A menina do lado e Manobra Radical. “Foi quando pude atestar o descaso que as pessoas tinham com a música”. “Cinema é um grande trabalho de grupo. Nosso ofício é fazer a visão do diretor aparecer na tela. Quando fiz a trilha sonora de Manobra Radical, tinha de captar um som solto, descontraído, coincidente com o espírito do filme”.

 

“Já no universo de Jeremias, playboy e garotão em Faroeste Caboclo, quinto filme em que trabalho, pude aproveitar a estética da época compondo uma trilha diegética, que pertencia ao meu imaginário musical, afinal cresci nos Estados Unidos escutando The Who”, diz. “O interessante é que conseguimos transpor as pessoas para essa época, traduzindo o choque entre os dois mundos. Fomos bem elogiados”, finaliza.

 

A 46ª edição do FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO tem coordenação geral de Sérgio Fidalgo, coordenador de Audiovisual da Secretaria de Estado de Cultura do GDF. O Patrocínio é da Petrobras, BNDES, Terracap e BRB.  Apoio da Lei de Incentivo à Cultura, Inframérica (Aeroporto de Brasília), Câmara Legislativa do Distrito Federal, Canal Brasil, TV Brasil, Revista de Cinema. Realização: Instituto Alvorada Brasil, Secretaria de Cultura, Governo do Distrito Federal e Ministério da Cultura.

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