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Nono e último debate das mostras competitivas – a força do coletivo

27.9.2016
Nono e último debate das mostras competitivas – a força do coletivo

Realizadores do curta-metragem paulista Os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos e do longa Deserto, produzido no Rio de Janeiro, sentaram-se à mesa de debate do Salão Caxambu do Kubitschek Plaza Hotel, sob a mediação da jornalista Maria do Rosário Caetano para o nono e último debate das mostras competitivas do 49º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO. Em comum, o fato de serem filmes sobre coletivos que servem de analogia sobre a situação do Brasil contemporâneo.

 

Os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos é dirigido por Gustavo Vinagre e tem no elenco Caetano Gotardo, Nash Laila, Julia Katharine e Luiz Felipe Lucas. Apresenta um grupo de amigos que dividem a casa e a vida. E que cuidam uns dos outros. Segundo contou o diretor, a ideia do filme surgiu depois que viu a imagem de um pé apoiado numa árvore, feita pelo fotógrafo tcheco Josef Koudelka. “Eu estava lendo o terceiro volume da História da Sexualidade, de Michel Foucault, estava muito angustiado por causa do processo de impeachment da Dilma, e quis fazer tudo muito rápido. Eu não trabalho com referência. É um processo mais íntimo, a casa do filme é a nossa casa”, revelou.

 

Uma das protagonistas do curta, Julia Katharine, ligada ao projeto Transcidadania, da Prefeitura de São Paulo, emocionou a plateia ao fazer um depoimento pessoal: “Eu sempre quis ser atriz, mas achava que minha condição de trans impediria isso. Mas este filme me ofereceu a oportunidade e agora eu não quero mais parar”, disse. “Há uma variedade de gêneros que é mantida invisível pela sociedade. No entanto, nós existimos e queremos viver. A personagem que eu faço não é uma caricatura. Espero que a cada dia aumentem os espaços para as meninas e meninos trans no cinema, para podermos mostrar que não somos os estereótipos que têm de nós”.

 

Caetano Gotardo, que é também diretor de cinema, disse que Os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos tinha um roteiro inicial que foi trabalhado em conjunto pelo diretor e os protagonistas. “Fizemos uns quatro encontros e filmamos tudo em dois dias, pois fizemos tudo sem dinheiro. Fomos entendendo o microcosmo, os personagens, as relações e acabou que na filmagem não teve muito improviso. Mas havia um processo de permeabilidade, de discussão viva e constante, durante a preparação, a filmagem etc”.

 

UMA ALEGORIA DO BRASIL

 

Deserto, filme de estreia do ator paranaense Guilherme Weber na direção cinematográfica, apresenta uma trupe de velhos atores que percorrem o interior do País, apresentando-se em espetáculos. Quando chegam a uma cidadezinha abandonada, em pleno sertão nordestino, encontram uma fonte de água pura e decidem permanecer no local. Aos poucos, vão assumindo papeis tradicionais da vida em comunidade.

 

O filme tem elenco de peso. A começar por Lima Duarte, responsável por um monólogo de tirar o fôlego. Além dele, estão outros nomes consagrados como Cida Moreira, Everaldo Pontes, Magali Biff (atriz experiente em teatro e estreando no cinema), dentre outros. “Tinha uma imensa vontade de transformar um desejo íntimo em sonho coletivo e fraterno, que é como atua o cinema”, afirmou Guilherme Weber. De acordo com ele, a intenção era abordar temas como o exílio, a velhice, a falsificação de identidades e o Brasil através de personagens que estão sempre se movendo, tentando povoar.

 

Guilherme Weber confessou que os personagens de Lima Duarte e Cida Moreira foram especialmente escritos para os dois: “O Lima é meu ator favorito e a Cida a cantora que eu mais gosto. Então, se eles tivessem dito que não poderiam fazer o filme eu teria caminhado para outra coisa”, expôs o diretor, explicando: “Eu queria que a trupe fosse liderada por um desses nossos heróis”.

 

Segundo revelou Weber, Deserto é livremente inspirado no livro ‘Santa Maria do Circo’, do autor mexicano David Toscana. Conta o diretor: “Ele foi pra mim uma espécie de febre inicial de um projeto que fizesse uma alegoria sobre a formação da nação. Só que eu transferi o deserto mexicano para o sertão nordestino, que é um espaço fantasioso tão presente na literatura, na música, no cinema brasileiros. Estão ali questões importantes do Brasil de hoje, como a violência contra a mulher, o preconceito racial, a falta de água”.

 

Em Deserto, as personagens usam roupas pesadas, que fazem referência ao teatro elisabetano, em pleno calor nordestino. O diretor explica: “Na época de Shakespeare, os atores usavam em cena as roupas rotas que os nobres doavam. Com isso, os nobres achavam que poderiam dominar o desconhecido. Eu queria evocar esse universo, com figurinos rotos, pesados, num lugar quente, sustentando essa coisa portentosa e decadente, alegoria a um estilo que também está morrendo”.

 

Para chegar à fotografia do filme, o diretor revelou ter estudado, junto com o fotógrafo Rui Poças, quadros de Velázquez, Rubens e outros clássicos. “Depois, a figurinista Kika Lopes transformou tudo aquilo num sertão um pouco imaginário”, disse Guilherme Weber. O montador Ricardo Pretti encontrou nas imagens captadas um diálogo com o cinema de John Ford, “que tão bem espelhou o processo violento de formação da nação norte-americana”.

 

O filme gerou polêmica, ao colocar personagens rindo de casos relatados de violência contra a mulher e de racismo. Diz o diretor: ”Não são piadas. São representações de nossos demônios. Existe uma frase em latim que diz mais ou menos que ‘Rindo castigam-se costumes’. O homem é o lobo do homem. Quis mostrar o tipo de pensamento que fundamenta a criação de uma sociedade onde as mulheres são assassinadas, os negros discriminados. É o fundamento da arte. Ali, há o deserto também de ideias. São vozes de todos os lados negros da nossa sociedade, são bufões que encarnam os nossos lados negros. A gente deveria sempre dizer ao ator: ‘obrigado por ter passado isso por mim’”.

 

 

 

 

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